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Será que o cérebro não gosta de mudanças porque prefere economizar energia?

“O cérebro busca economizar energia”.

Já ouviu isso em alguma palestra, vídeo ou curso? E essa outra:

“As pessoas não gostam de mudanças por que o cérebro busca economizar energia e por isso prefere fazer sempre as mesmas coisas”?

Nem tudo está errado, mas não é tão simplista assim…

A afirmação de que o cérebro tem dificuldades em mudar porque busca economizar energia é baseada em princípios gerais de neurociência e otimização energética, entretanto, é importante abordá-la com um certo grau de cautela.

Embora o cérebro seja um órgão altamente eficiente que busca maximizar o uso de energia, é necessário considerar uma série de fatores e nuances antes de fazer uma afirmação categórica sobre sua relação com a mudança.

O cérebro humano representa, aproximadamente, entre 2 e 3% do peso corporal de um adulto, e consome 20% do oxigênio e da glicose do organismo. Ele é um órgão altamente dependente da glicose como fonte de energia para o seu funcionamento.

A glicose é convertida em trifosfato de adenosina (ATP), que é essencial para o metabolismo cerebral e a realização de seus processos metabólicos. Em média, um cérebro adulto consome aproximadamente 5,6 miligramas de glicose a cada 100 gramas de tecido cerebral por minuto.

Um estudo de 2015 publicado no “Annual Review of Neuroscience” destaca a relação entre o consumo de energia do cérebro e a atividade do “modo padrão” (default mode network), que é uma rede de regiões cerebrais envolvida em processos mentais automáticos e de repouso. Discute-se como a conservação de energia influencia a organização e a atividade dessa rede.

É verdade que mudanças exigem adaptação, aprendizado e esforço cognitivo adicional, o que pode aumentar o consumo de energia. Está certo, o cérebro pode inicialmente resistir à mudança como uma forma de preservar recursos energéticos.

Mas não podemos dizer que a razão é essa, ou, pelo menos, apenas essa! Embora a otimização energética seja um fator em sua arquitetura e funcionamento, não é o único.

É importante ressaltar que a dificuldade em mudar não é exclusivamente atribuída à busca de economia de energia encefálica.

Fatores psicológicos, sociais e emocionais também desempenham um papel significativo nas resistências à mudança. A motivação, o ambiente social, as experiências passadas e as crenças pessoais são apenas alguns exemplos de fatores que podem influenciar a capacidade de uma pessoa de se adaptar e mudar.

A razão pela qual o cérebro pode resistir à mudança não pode ser atribuída a um único fator, pois é influenciada por uma combinação de elementos, como, por exemplo, a tendência natural de buscar a estabilidade e a manutenção do equilíbrio interno, conhecido como homeostase.

Isso envolve a manutenção de padrões e rotinas familiares que o cérebro já está acostumado. Mudanças podem perturbar esse equilíbrio.

Outra razão é que o cérebro constrói conexões neurais com base em experiências e aprendizado passado. Quando nos deparamos com uma mudança, isso pode desafiar essas conexões estabelecidas e exigir a formação de novas vias neurais. Essa reorganização pode ser mais difícil e exigir mais esforço cognitivo do que a execução de tarefas habituais, independentemente do consumo de energia.

Vale ressaltar que o medo do desconhecido também tem grande impacto. O cérebro tem uma tendência a preferir situações familiares e conhecidas, pois isso cria um senso de segurança. Mudanças muitas vezes envolvem a entrada em território desconhecido, o que pode gerar emoções como uma forma de autopreservação.

Por fim, nossas crenças, valores e identidade pessoal são componentes essenciais da forma como percebemos o mundo. Mudanças podem desafiar essas crenças e a noção de quem somos. O cérebro pode se apegar a padrões e hábitos existentes para manter uma sensação de coesão e estabilidade em relação à identidade.

Esses fatores são interconectados e podem variar de pessoa para pessoa. A resistência à mudança é uma resposta complexa e multidimensional que envolve várias possibilidades.

Embora a economia de energia é um princípio importante na organização e no funcionamento do cérebro, afirmar que o cérebro está sempre tentando poupá-la é uma generalização simplista.

Parece correto afirmar que mudanças podem usar energia adicional no cérebro, especialmente durante a aquisição inicial de novas habilidades, enquanto a repetição e a automação de tarefas podem resultar em uma redução no consumo de energia.

No entanto, é necessário considerar a multidimensionalidade desses processos e as várias variáveis envolvidas na atividade cerebral para uma compreensão completa da resistência às mudanças.

Ah! Se tudo fosse tão simples assim…

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MARCELO DE ELIAS é mestre em inovação e design com MBAs em Estratégia, Gestão de Pessoas, formação internacional em gestão da mudança em tempos desafiadores e pós-graduado em neurociências. Conteudista especialista em protagonismo e gestão de mudanças, é professor da FGV, FDC e outras escolas de negócios. Escritor e fundador da Universidade da Mudança. Pioneiro no assunto “Inner Skills” no Brasil.

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