Por Marcelo de Elias
Ainda existe uma crença confortável nas organizações: a de que a resistência à mudança “mora” nas pessoas.
É o colaborador que “não compra a ideia”. É o líder que “puxa para trás”. É a equipe que “não tem comprometimento”.
Essa narrativa é tentadora porque desloca o problema. Coloca a resistência longe da estratégia, do desenho organizacional e, principalmente, da liderança. Só que a prática (e a teoria séria em gestão de mudanças) aponta um diagnóstico bem menos conveniente:
Resistência raramente é traço de personalidade; ela é, na maioria dos casos, um efeito previsível de como a mudança foi concebida, traduzida em decisões, comunicada, governada e sustentada ao longo do tempo.
Em atividades de consultoria, onde somos especialistas em cultura organizacional e em gestão da mudança, eu costumo dizer que resistência é um “indicador atrasado” (lagging indicator) de inconsistência do sistema.
Quando ela aparece com força, quase sempre já houve uma sequência de eventos anteriores: ambiguidade prolongada, decisões reversíveis tratadas como irreversíveis, metas conflitantes, liderança desalinhada, incentivos premiando comportamentos antigos. E aqui está um ponto que muitos evitam encarar: quanto maior a resistência, maior a probabilidade de a organização estar tentando mudar rápido demais sobre bases antigas. Acelera a execução sem atualizar governança, papéis, regras de decisão e mecanismos de reforço cultural.
Você já se perguntou por que tantas transformações “bem planejadas no papel” falham na execução? Porque, no papel, o plano descreve atividades; na vida real, a mudança exige reconfigurar um sistema sociotécnico (pessoas, processos, tecnologia, decisões, poder, narrativa e recompensas) que tende naturalmente à estabilidade.
O infográfico a seguir, sintetiza um pouco as ideias que estão nesse artigo:

Resistência não é oposição. É autoproteção
Do ponto de vista da psicologia organizacional, resistir à mudança é frequentemente um comportamento adaptativo. Em ambientes de trabalho, o que chamamos de “resistência” costuma ser uma tentativa de preservar previsibilidade, competência percebida, status, pertencimento e segurança psicológica.
Quando a mudança aumenta a sensação de ameaça percebida e reduz clareza, o cérebro humano prioriza a redução de risco, e isso aparece como respostas comportamentais bem conhecidas.
Na prática, isso se traduz em:
- Ceticismo (“isso vai passar”);
- Procrastinação (“vamos esperar estabilizar”);
- Conformidade superficial (faz “para inglês ver”);
- Acordo verbal sem mudança comportamental (“pode contar comigo”, mas a pessoa não muda);
- Compliance sem comprometimento (cumpre o rito, protege o padrão).
Em muitos projetos de transformação que acompanhei, as pessoas não resistiam ao “novo modelo” em si. Elas resistiam à insegurança operacional, à perda de controle, à ambiguidade sem prazo e, principalmente, à sensação de que “o combinado muda toda semana”. Ou seja: não é rebeldia; é autoproteção.
Tratar resistência como problema individual é um erro técnico e humano. Técnico, porque ignora causas sistêmicas (governança, arquitetura de decisões, incentivos, desenho de trabalho). Humano, porque transforma dúvidas legítimas em falhas, rompendo confiança, exatamente o recurso mais necessário para atravessar transformação.
O grande equívoco: confundir adesão com engajamento
Um ponto pouco discutido nos processos de mudança é a diferença entre adesão e engajamento.
Adesão é concordar por falta de alternativa, por pressão hierárquica ou por fadiga (“ok, vamos fazer”). Engajamento é entender, confiar e se envolver ativamente porque enxerga sentido, justiça e viabilidade.
Muitas empresas celebram adesão achando que conquistaram engajamento. E só percebem o erro quando a mudança não se sustenta no médio prazo.
Na prática, esse padrão é recorrente:
- Rituais são cumpridos;
- Novas palavras entram no vocabulário (“agilidade”, “cliente no centro”, “dados”);
- Indicadores de curto prazo até melhoram (efeito campanha, efeito novidade).
Mas as decisões seguem o mesmo padrão. Os conflitos continuam evitados. Os incentivos permanecem desalinhados. A governança segue premiando o “herói do incêndio”, não o “dono do processo”. A resistência então volta: mais silenciosa, mais sofisticada e, muitas vezes, mascarada de “pragmatismo”.
Mudança não é evento; é sistema
Transformação organizacional não acontece por anúncio, treinamento isolado ou campanha interna. Ela acontece quando múltiplos elementos do sistema passam a apontar na mesma direção, de forma consistente e repetida. Cultura, no dia a dia, é menos aquilo que a empresa declara e mais aquilo que ela tolera, reforça e pune, explicitamente ou por omissão.
Alguns elementos são pouco glamourosos, mas decisivos:
- Arquitetura de decisões – As pessoas mudam quando percebem que decisões diferentes são esperadas, possíveis e recompensadas. Se a matriz de decisão (quem decide o quê, com quais critérios, em quanto tempo, com quais trade-offs) não muda, o comportamento também não muda. A organização pede autonomia, mas centraliza; pede agilidade, mas cria comitês; pede accountability, mas mantém ambiguidade de papéis.
- Sistemas de reconhecimento e consequência – Não existe mudança sustentável quando discurso aponta para um lado e bônus, promoções, status e “quem tem voz” reforçam o outro. Incentivos não são apenas financeiros; incluem visibilidade, acesso, carreira, tolerância ao erro e reputação interna. O sistema sempre ensina o que “vale a pena” na prática.
- Rituais de gestão – Reuniões, fóruns, comitês, cadências e rotinas de acompanhamento são infraestrutura cultural. Eles determinam o que vira prioridade, o que é discutido com franqueza e o que é varrido para baixo do tapete. Quando esses rituais não são redesenhados, a organização cria um paradoxo: pede comportamento novo dentro de um sistema velho.
E sistemas velhos quase sempre vencem indivíduos bem-intencionados.
Ações práticas que realmente reduzem resistência
Agora, o que funciona de verdade, não como fórmula mágica, mas como construção deliberada:
Trabalhar previsibilidade, não apenas velocidade
Mudanças rápidas sem previsibilidade geram ansiedade e cinismo. Mudanças previsíveis, mesmo desafiadoras, geram adaptação.
Isso exige:
- Deixar claro o que muda agora, o que muda depois e o que não muda
- Explicitar critérios de decisão e trade-offs (ex.: custo vs. qualidade vs. tempo)
- Assumir o que ainda não está definido e quando será definido
Curiosamente, admitir incerteza com maturidade aumenta confiança. Fingir controle destrói credibilidade, e credibilidade é “moeda” de transformação.
Tratar a liderança intermediária como eixo, não como canal
Um erro clássico é comunicar a mudança “para” a liderança intermediária esperando que ela replique. Essa camada vive um conflito brutal: precisa sustentar discurso enquanto ainda está processando impacto, perdas, novas expectativas e riscos pessoais.
Projetos mais maduros envolvem essa liderança desde a construção da solução (co-design), não apenas na execução. Quando o líder entende, participa e influencia, a resistência diminui drasticamente. Quando ele apenas repassa, ela se multiplica, porque o time “lê” a ambivalência entre discurso e prática, não apenas os “slides” que o RH está usando para comunicar a mudança.
Criar microvitórias visíveis e legítimas
Transformações grandes precisam de evidências pequenas, concretas e frequentes. Pessoas confiam menos em promessas e mais em sinais observáveis no trabalho real.
Microvitórias não são “cases de marketing”. São melhorias verificáveis no cotidiano:
- Menos retrabalho e menos perdas de informações;
- Mais autonomia real (com limites claros);
- Decisões mais rápidas com critérios explícitos;
- Conflitos tratados com mais maturidade, sem punição política.
Esses sinais constroem segurança psicológica e aumentam autoeficácia (“eu consigo operar no novo”). Segurança é o solo onde a mudança cresce.
Sustentar conversas difíceis ao longo do tempo
Mudança não se resolve apenas com uma conversa inspiradora. Ela exige conversas difíceis, repetidas e distribuídas no tempo:
- Sobre perda de poder e redefinição de autoridade;
- Sobre expectativas irreais e capacidade do sistema (capacidade de mudança não é infinita);
- Sobre competências que precisarão ser desenvolvidas (e o que a empresa fará a respeito);
- Sobre comportamentos que não cabem mais (e quais consequências existirão).
Evitar essas conversas não reduz resistência; apenas a adia (e geralmente a torna mais cara).
Medir o que importa, não apenas o que é fácil
Muitas empresas medem avanço por presença em treinamento, status de cronograma e entrega de comunicados. Poucas medem indicadores realmente ligados à sustentação da mudança, como:
- Qualidade e velocidade de decisões (lead time decisório);
- Padrões de colaboração entre áreas (silos diminuíram ou mudaram de lugar?);
- Autonomia percebida e clareza de papéis;
- Coerência entre discurso e prática (o que foi prometido vs. o que foi entregue);
- Aderência de incentivos ao comportamento desejado.
O que não é observado tende a regredir, porque o sistema volta para o modo “padrão de sempre”.
Resistência diminui quando coerência aumenta
Depois de anos estudando e vivendo processos de mudança, cheguei a uma conclusão simples, e desconfortável:
As pessoas não “resistem verdadeiramente” à mudança; elas resistem à incoerência.
Quando narrativa, decisões, rituais, incentivos e comportamentos da liderança começam a se alinhar, a resistência perde função. Ela deixa de ser proteção e vira aprendizagem. E isso não acontece de uma vez. Acontece com repetição, consistência e liderança adulta, aquela que troca teatro por responsabilidade, e promessa por entrega.
E você: onde, hoje, a sua organização está pedindo comportamento novo sem oferecer um sistema novo?
Diminuir resistência não é convencer pessoas. É redesenhar contextos. Porque mudar, evoluir e liderar não é um ato heroico. É um trabalho contínuo e profundamente humano.
MARCELO DE ELIAS é LinkedIn Top Voice, mestre em Inovação e Design, com MBAs em Estratégia (USP) e Gestão de Pessoas (FGV), formação internacional em Gestão da Mudança (University of Tampa/EUA), IA para Negócios (ISCTE – Lisboa/PT) e pós-graduação em Neurociência e Psicologia Positiva (PUC).
É professor da FGV, FDC e outras escolas de negócios, além de escritor e fundador da Universidade da Mudança. Reconhecido como pioneiro no tema Inner Skills no Brasil.
Já apoiou líderes e empresas como GPA/Pão de Açúcar, Cobasi, Neoenergia, Leroy Merlin, Carrefour, MSD/Merck, GM, Fiat, Raízen/Shell, SBT, Caixa, Bradesco, Unilever, Sebrae, Sabesp, Ministério Público, entre outros. Mantém NPS de 100% e é destaque em premiações como Top5 CBTD, Top5 KLA e Melhor Palestrante de Gestão da Mudança pela Associação Brasileira de Liderança.
Suas palestras não são “produtos de prateleira”: são projetos customizados, pensados para a realidade cultural, os desafios estratégicos e o perfil de cada público.
Se quiser saber como MARCELO DE ELIAS pode apoiar sua empresa em temas de mudança, inovação, liderança ou cultura, acesse: http://marcelodeelias.com.br/
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