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O que fazer depois de realizar as ações de gestão da mudança cultural?

Por Marcelo de Elias – especialista em gestão da mudança, cultura organizacional e liderança

Existe um momento peculiar na vida de qualquer organização que passou por um processo intenso de mudança. As capacitações foram feitas, as comunicações foram cuidadosamente elaboradas, as lideranças foram preparadas, o engajamento foi construído. E então, de repente, a sensação é de que o trabalho terminou. A equipe respira. O projeto é encerrado. E a empresa segue em frente para o próximo desafio.

É exatamente nesse momento que muitas mudanças morrem.

Não de forma dramática, como em uma grande crise ou uma rebelião aberta. Morrem lentamente, como uma chama que vai perdendo oxigênio.

As reuniões de acompanhamento espaçam. Os líderes desviam a atenção. Os colaboradores, silenciosamente, começam a regressar ao que sempre fizeram. E meses depois, olhando para os indicadores, a organização percebe que investiu tempo, energia e dinheiro para chegar onde já estava.


O cérebro gosta de novidades, mas…

Há uma ironia fascinante na nossa neurologia que vale a pena reconhecer: o cérebro é neófilo, ou seja, tem uma atração genuína pelo novo. Ele se ilumina diante de estímulos inéditos, libera dopamina na antecipação de experiências desconhecidas e nos empurra com entusiasmo para dentro de qualquer novidade.

O problema é que essa mesma arquitetura cerebral que nos atrai para o novo perde o interesse com a mesma velocidade com que o ganhou. É exatamente nessa lacuna entre a sedução do início e o trabalho silencioso da consolidação que a maioria das transformações organizacionais se perde.

Voltamos a ser o que éramos.

Somos biologicamente inclinados ao conforto do familiar. Estudiosos das funções cerebrais apontam que o nosso sistema nervoso tende a preferir o estado conhecido, mesmo que esse estado não seja o melhor para nós. Os hábitos antigos são trilhas neurais profundamente estabelecidas. Mudar exige energia. Manter o novo exige ainda mais.

Isso explica por que tantas dietas fracassam no segundo mês, por que academias ficam cheias em janeiro e vazias em março, e por que processos recém-implementados nas empresas começam a sofrer desvios discretos assim que a pressão inicial arrefece. Não é fraqueza de caráter nem má vontade. É a arquitetura do nosso funcionamento como espécie.

Jeff Hiatt, criador da metodologia ADKAR, capturou essa dinâmica com precisão quando observou que “quando uma mudança é concluída, as organizações tendem a passar para a próxima tarefa imediatamente”. O problema é que a mudança não está concluída quando as ações de implementação terminam. Ela está apenas começando a enfrentar seu teste real: o cotidiano sem holofotes.


Sustentar é uma etapa, não um detalhe

A sustentação da mudança precisa ser tratada como uma fase com intenção, recursos e responsáveis, e não como um apêndice ou uma boa intenção genérica de “continuar acompanhando”. Essa distinção importa porque muda a pergunta que os líderes fazem a si mesmos.

A primeira providência prática é estabelecer um sistema de monitoramento de resultados.

Parece óbvio, mas é surpreendente o número de organizações que implementam mudanças significativas sem definir claramente o que será medido nem com que frequência. KPIs relevantes, avaliações periódicas, coleta estruturada de feedbacks de colaboradores e líderes, dashboards visíveis que mostram em tempo real onde a organização está, tudo isso compõe a arquitetura de acompanhamento que impede o esquecimento silencioso.

O monitoramento cumpre uma função dupla: ele detecta desvios antes que se tornem regressão, e também torna visível o progresso, o que é combustível para a motivação coletiva. Não há nada mais desmotivador do que trabalhar arduamente em direção a uma mudança e não saber se está funcionando. E não há nada mais mobilizador do que ver, em dados concretos, que o esforço está valendo.


A arte de celebrar no caminho certo

Uma das maiores ferramentas de sustentação que as organizações subutilizam é a celebração. E aqui vale uma precisão importante: não se trata de festa pela festa, de reconhecimento vazio ou de fabricar entusiasmo artificial. Trata-se de algo muito mais refinado, que é a capacidade de tornar visível o que está dando certo e conectar esse sucesso às pessoas que o geraram.

O ser humano tem uma necessidade profunda de sentir que seus esforços valeram.

Quando essa sensação positiva acontece, a tendência natural é repetir o comportamento que a gerou. É um loop virtuoso que a neurociência descreve bem e que qualquer líder experiente reconhece intuitivamente.

A estratégia mais eficaz aqui não é aguardar o grand finale para então comemorar. É quebrar o objetivo maior em etapas menores e celebrar cada uma delas com a devida intensidade.

Um resultado parcial alcançado merece reconhecimento real, e esse reconhecimento, quando feito no tempo certo e com genuinidade, serve como âncora comportamental para o que vem a seguir.

Isso não exige grandes investimentos. Uma reunião em que o líder olha nos olhos dos colaboradores e descreve especificamente o que cada um fez de bem, mostrando com clareza como aquele comportamento contribuiu para o resultado, pode ter mais impacto do que uma confraternização cara e genérica. O que importa é a especificidade e a autenticidade.

Reconhecimento vago é melhor do que nenhum, mas reconhecimento preciso e pessoal é transformador.

Da mesma forma, quando o resultado é alcançado, o patrocinador da mudança tem a responsabilidade de celebrá-lo com o mesmo vigor com que apresentou a visão no início da jornada. A mensagem de chegada deve ter o mesmo entusiasmo da mensagem de partida.


Feedback não é só elogio

Outro elemento central da sustentação é o feedback contínuo, e isso inclui tanto o reconhecimento dos progressos quanto a correção dos desvios. Líderes que entendem isso sabem que dar um feedback orientativo para alguém que ainda está agindo da maneira antiga não é puni-lo, é incluí-lo.

Existe uma dinâmica social que pode ser um dos maiores obstáculos à sustentação da mudança: quando parte do grupo resiste e pressiona os colegas a fazer o mesmo, o custo social de apoiar a mudança pode se tornar maior do que o custo de resistir a ela.

O colaborador que adota o novo comportamento pode ser visto como “o chato que está abraçando a ideia da empresa”. Isso é real, e ignorar essa dinâmica é ingênuo.

Por isso, a liderança precisa ser proativa em dois movimentos simultâneos: reforçar positivamente aqueles que estão se comportando de acordo com a nova cultura, e dar feedback orientativo claro àqueles que ainda não estão. A omissão diante do desvio é, na prática, uma autorização silenciosa para que o desvio continue.


Accountability: o parceiro de tênis que você precisa

Uma das formas mais poderosas e subestimadas de sustentação é criar mecanismos de prestação de contas, o que muitos chamam hoje de accountability. Quando sabemos que alguém vai verificar se fizemos o que nos comprometemos a fazer, a probabilidade de fazermos aumenta significativamente.

Há um exemplo cotidiano que ilustra isso com clareza. Imagine alguém que decide acordar às cinco da manhã para praticar tênis, mas que historicamente tem dificuldade com o horário. Se depender apenas da própria força de vontade, o despertador será desligado e a cama vencerá. Mas se houver um parceiro esperando na calçada, a equação muda completamente. O inconveniente de deixar alguém esperando, de ter que inventar desculpas, de romper um compromisso interpessoal, esse inconveniente é mais forte do que o chamado da cama.

Nas organizações, isso se traduz em vincular os comportamentos esperados aos sistemas de avaliação de desempenho, em criar paineis visíveis de acompanhamento de indicadores, em tornar o progresso e os desvios transparentes para todos.

A visibilidade do desempenho não é uma forma de controle coercitivo, é uma forma de criar o contexto em que as pessoas se sentem responsáveis pelo resultado coletivo.


Cultura não é decreto, é hábito repetido

A fase mais profunda e duradoura de tudo isso é o que poderia ser chamado de manutenção da cultura. Aqui chegamos ao coração da questão: uma mudança organizacional só se torna cultura quando os novos comportamentos deixam de ser esforço consciente e passam a ser a forma natural de fazer as coisas.

Para que isso aconteça, é preciso trabalhar em quatro frentes de forma simultânea e consistente.

A primeira é tornar o novo comportamento mais fácil do que o antigo. Sistemas, processos e ferramentas precisam ser desenhados de modo que a nova forma de trabalhar seja o caminho de menor resistência, enquanto o antigo se torna inconveniente, pouco atraente ou simplesmente invisível. Quando o novo comportamento é claro, acessível e recompensador, ele se consolida naturalmente.

A segunda é construir novas rotinas. Hábitos não se formam por decisão, formam-se por repetição em contexto. Criar rituais, sequências padronizadas de ação, marcos recorrentes que coloquem os novos comportamentos em prática de forma consistente é o que transforma intenção em costume.

A terceira é revisar continuamente o propósito. As pessoas se desconectam da mudança quando perdem de vista o porquê. Manter viva a conversa sobre o que está em jogo, sobre onde a organização quer chegar e como cada comportamento contribui para isso, essa conversa precisa existir não apenas no início da jornada, mas ao longo de todo o processo e especialmente depois que a euforia inicial passa.

A quarta é ter a firmeza de não recuar. Resistências e recaídas são parte inevitável de qualquer processo de mudança real. O que diferencia as organizações que mudam de verdade das que apenas passam pela experiência da mudança é a consistência dos líderes em não relativizar os novos padrões quando a pressão aumenta. Ceder nas exceções é, lentamente, redefinir o que é a regra.


O legado de uma mudança bem sustentada

Tudo o que uma organização faz para sustentar uma mudança não serve apenas àquela mudança específica. Cada ciclo bem concluído constrói algo mais valioso do que o resultado imediato: constrói a capacidade organizacional de mudar.

Empresas que têm um histórico de mudanças sustentadas desenvolvem músculos que as outras não têm. Seus colaboradores acreditam quando uma nova iniciativa é lançada, porque aprenderam que as iniciativas não morrem. Seus líderes sabem como conduzir o processo porque já fizeram antes. Sua cultura carrega embutida a noção de que transformação é possível e que vale o esforço.

Por outro lado, organizações que acumulam projetos de mudança iniciados e não sustentados desenvolvem uma imunidade de outro tipo: a descrença. As pessoas aprendem que a mudança é sazonal, que basta esperar a pressão diminuir para que tudo volte ao normal. E quando essa crença se instala, ela se torna, ironicamente, a parte mais resistente de toda a cultura.

A pergunta do título tem, portanto, uma resposta que vai além de uma lista de ferramentas ou de um checklist de boas práticas.

O que fazer depois que as ações de gestão da mudança foram realizadas é continuar, com intenção, com método e com a compreensão de que a mudança não termina quando o projeto termina.

Ela termina quando os novos comportamentos se tornam tão naturais que ninguém mais os chama de novos.

Esse é o momento em que a cultura mudou de verdade.

Sua empresa também precisa potencializar a cultura? Ou precisa diagnosticar a cultura?

A cultura pode ser gerida de forma estruturada, prática e orientada a resultado. Quando existe método, clareza e consistência, a transformação deixa de ser tentativa e passa a ser construção.

Se você quer entender como aplicar essa lógica na sua empresa, com um modelo claro, adaptado à sua realidade e focado em resultados concretos, vale a conversa.

A Universidade da Mudança atua exatamente nesse ponto, ajudando organizações a transformar cultura em comportamento e comportamento em resultado.

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MARCELO DE ELIAS é LinkedIn Top Voice, mestre em Inovação e Design, com MBAs em Estratégia (USP) e Gestão de Pessoas (FGV), formação internacional em Gestão da Mudança (University of Tampa/EUA), IA para Negócios (ISCTE – Lisboa/PT) e pós-graduação em Neurociência e Psicologia Positiva (PUC).

Escritor best-seller na Amazon com o livro “Mudabilidade”.

É professor da FGV, FDC e outras escolas de negócios, além de escritor e fundador da Universidade da Mudança. Reconhecido como pioneiro no tema Inner Skills no Brasil.

Já apoiou líderes e empresas como GPA/Pão de Açúcar, Cobasi, Neoenergia, Leroy Merlin, Carrefour, MSD/Merck, GM, Fiat, Raízen/Shell, SBT, Caixa, Bradesco, Unilever, Sebrae, Sabesp, Ministério Público, entre outros. Mantém NPS de 100% e é destaque em premiações como Top5 CBTD, Top5 KLA e Melhor Palestrante de Escritor best-seller do livro “Mudabilidade” e desenvolvedor de metodologias sobre Mudanças e Cultura Organizacional.

Se quiser saber como MARCELO DE ELIAS pode apoiar sua empresa em temas de mudança, inovação, liderança ou cultura, acesse: http://marcelodeelias.com.br/

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Conteúdo do artigo
Marcelo de Elias em palestra em Brasília/DF

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