Por Marcelo de Elias
Vivemos em uma era de termos sofisticados. Ouvimos falar diariamente sobre a Crise de Pertencimento ou o Reskill or Exit (a pressão constante pela reinvenção). Também já tivemos momentos em debater sobre Quiet Quitting (a demissão silenciosa) ou o Great Resignation (a grande debandada). Mas, se descascarmos as camadas desses fenômenos modernos, encontraremos um sintoma antigo e persistente: o esvaziamento de sentido no trabalho.
Em minhas palestras e consultorias, costumo dizer que ninguém se apaixona por uma lista de tarefas. Tarefas são necessárias, pois são o “como” fazemos as coisas, mas elas raramente sustentam o brilho nos olhos no longo prazo. O que realmente engaja e transforma desempenho em algo extraordinário é o propósito.
Sei que, para muitos, a palavra propósito acabou desgastada pelo uso excessivo, tornando-se quase um clichê de ‘conversa de coach’ ou um conceito puramente poético e distante da realidade. Há quem a veja de forma pejorativa, como se fosse um enfeite para esconder a dureza das metas.
Precisamos separar o modismo da essência: o propósito não é uma palvra de efeito na parede da recepção, mas sim, é o fio condutor que dá lógica ao esforço. Quando o liderado entende o ‘porquê’, ele suporta quase qualquer ‘como’.
Sem essa conexão, o trabalho vira apenas uma troca burocrática de horas por salário, e é justamente nesse vazio que o engajamento morre.
Além da Tarefa: O Líder como Arquiteto de Propósitos
É amplamente aceito que um ambiente de trabalho incentivador e engajador é fundamental para o sucesso da empresa e a satisfação dos colaboradores. E o líder é o maior protagonista para isso.
O engajamento de colaboradores pode ser definido como “o grau em que os funcionários estão emocionalmente conectados com a organização e comprometidos com seus objetivos” (Macey & Schneider, 2008).
Diversos estudos têm demonstrado que o engajamento dos colaboradores está diretamente relacionado com o desempenho organizacional. Uma pesquisa realizada pela consultoria Gallup em 2016 mostrou que empresas com alto engajamento de funcionários têm uma lucratividade 21% maior do que aquelas com baixo engajamento.
Não temos dúvidas de que um dos fatores mais importantes para o engajamento dos colaboradores é a liderança. De acordo com os autores Kouzes e Posner (2012), “os líderes são responsáveis por criar um ambiente de trabalho positivo e inspirador, onde as pessoas se sintam valorizadas e motivadas a contribuir para o sucesso da organização”. Para isso, os líderes precisam estabelecer uma visão clara e inspiradora, comunicá-la de forma eficaz e envolver os funcionários na sua implementação. Além disso, é fundamental que os líderes ofereçam feedback regular, reconheçam as conquistas dos funcionários e forneçam oportunidades de desenvolvimento. Cabe ao líder fazer uma verdadeira gestão por propósitos.
A gestão por propósitos é uma abordagem que se concentra na definição de uma intenção clara e inspiradora para a organização, que vai além do lucro financeiro. Empresas que adotam essa abordagem têm maior probabilidade de obter sucesso a longo prazo, atraindo clientes leais e funcionários engajados.
Os líderes precisam articular claramente o propósito da organização e alinhar as atividades e comportamentos dos funcionários com ele. Segundo um artigo da HBR em 2017, “o líder deve ser o principal guardião do propósito, incentivando e promovendo uma cultura que apoie sua realização”.
Para que os funcionários sejam verdadeiramente motivados pelo propósito, eles precisam sentir que fazem parte de algo maior, que seu trabalho tem um impacto positivo, e tudo vai além do que simplesmente executar tarefas.
Um grande exemplo de empresa que valoriza o engajamento de colaboradores é a Zappos, uma gigante americana de varejo online. A empresa adota uma abordagem única de recrutamento e seleção em que os candidatos são avaliados não apenas por suas habilidades técnicas, mas também por sua adequação cultural. A empresa valoriza a colaboração e a criatividade, e incentiva os funcionários a assumirem riscos e a buscarem soluções inovadoras para os desafios do negócio. Além disso, a Zappos oferece uma ampla gama de benefícios e oportunidades de desenvolvimento para seus funcionários, o que contribui para um alto nível de engajamento.
Mas nada disso funciona sem bons líderes no cotidiano dos negócios. Eles são capazes de ampliar (ou destruir) o engajamento. Líderes precisam criar um ambiente de trabalho positivo e inspirador, oferecer feedback regular e reconhecimento das conquistas dos funcionários, estabelecer uma visão clara e inspiradora, e articular o propósito da organização de forma convincente.
A Síndrome do “Construtor de Paredes”
Existe uma metáfora clássica que ilustra bem essa diferença. Imagine três pedreiros em uma obra. Ao serem questionados sobre o que fazem, o primeiro responde secamente: “Estou assentando tijolos”. O segundo diz: “Estou construindo uma igreja”. Já o terceiro, com um olhar mais brilhante, afirma: “Estou construindo um lugar onde as pessoas se sentirão mais próximas de Deus”.
Os três estão executando exatamente a mesma tarefa técnica. No entanto, a experiência interna de cada um é abissalmente diferente. O primeiro lida com o peso do tédio. O segundo, com a importância da estrutura. O terceiro, com o legado.
O papel do líder não é apenas conferir se os tijolos estão alinhados, mas garantir que cada membro da equipe saiba que tipo de “catedral” está ajudando a erguer.
O Perigo do Descaso
Muitas vezes, a liderança falha não por excesso de cobrança, mas por falta de presença e atenção genuína. O descaso anula a pessoa. Quando um colaborador traz uma ideia, uma dor ou uma sugestão e o líder ignora ou trata com desinteresse, a mensagem implícita é: “o que você pensa não importa, logo, você não importa”.
Liderar para o engajamento exige o que chamo de “gestão por objetivos maiores”. Isso não significa um olhar romantizado ou ingênuo do mundo corporativo. Haverá momentos em que a lista de tarefas precisará ser entregue mecanicamente até as 15h. Mesmo nesse cenário, o líder precisa conectar esse esforço momentâneo ao valor que ele gera.
A Responsabilidade da Conexão
Lembro-me de um caso em uma indústria de autopeças. Um colaborador excelente queria pedir demissão porque estava cansado de “apertar um botão” o dia todo para fabricar alguma coisa. Ele via apenas o metal e o processo. Quando o ajudei a enxergar que ele não fazia peças, mas sim, algo maior, a percepção mudou, pelo menos momentaneamente.
O problema real? O líder direto dele também só enxergava as autopeças. Se o líder não vê valor no que seu departamento faz, como poderá inspirar sua equipe?
O Líder Inspirador
O bom líder evoluiu de um simples “delegador de tarefas” para um “inspirador de propósitos”. Ser líder hoje é:
- Ouvir ativamente: Acolher ideias, mesmo as que não podem ser implementadas, explicando o porquê e valorizando a intenção.
- Criar ambiente: Garantir um clima organizacional onde as pessoas sintam que podem contribuir com sua identidade.
- Conectar pontos: Mostrar constantemente como o trabalho individual impacta o todo e a sociedade.
Se você quer desempenho de alto nível, pare de gerir apenas processos e comece a gerir significados. As pessoas não querem apenas um emprego; elas querem saber que o tempo e a energia delas estão ajudando a construir algo que vale a pena.
Assista ao vídeo completo sobre esse tema: Como os líderes transformam propósito e engajamento em desempenho?
MARCELO DE ELIAS é LinkedIn Top Voice, mestre em Inovação e Design, com MBAs em Estratégia (USP) e Gestão de Pessoas (FGV), formação internacional em Gestão da Mudança (University of Tampa/EUA), IA para Negócios (ISCTE – Lisboa/PT) e pós-graduação em Neurociência e Psicologia Positiva (PUC).
Escritor best-seller na Amazon com o livro “Mudabilidade”.
É professor da FGV, FDC e outras escolas de negócios, além de escritor e fundador da Universidade da Mudança. Reconhecido como pioneiro no tema Inner Skills no Brasil.
Já apoiou líderes e empresas como GPA/Pão de Açúcar, Cobasi, Neoenergia, Leroy Merlin, Carrefour, MSD/Merck, GM, Fiat, Raízen/Shell, SBT, Caixa, Bradesco, Unilever, Sebrae, Sabesp, Ministério Público, entre outros. Mantém NPS de 100% e é destaque em premiações como Top5 CBTD, Top5 KLA e Melhor Palestrante de Escritor best-seller do livro “Mudabilidade” e desenvolvedor de metodologias sobre Mudanças e Cultura Organizacional.
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